Este livro vem escrito a partir de uma perspectiva de urgência. Por toda parte apontam sintomas que sinalizam grandes devastações no planeta Terra e na humanidade, O projeto de crescimento material ilimitado, mundialmente integrado, sacrifica 2/3 da humanidade, extenua recursos da Terra e compromete o futuro das gerações vindouras. Encontramo-nos no limiar de bifurcações fenomenais. Qual é o limite de suportabilidade do super-organismo-Terra? Estamos rumando na direção de uma civilização do caos?
A Terra em sua biografia conheceu cataclismos inimagináveis mas sempre sobreviveu. Sempre salvaguardou o princípio da vida e de sua diversidade.
Estimamos que agora não será diferente. Há chance de salvamento. Mas para isso devemos percorrer um longo caminho de conversão de nossos hábitos cotidianos e políticos, privados e públicos, culturais e espirituais. A degradação crescente de nossa casa comum, a Terra, denuncia nossa crise de adolescência. Importa que entremos na idade madura e mostremos sinais de sabedoria. Sem isso não garantiremos um futuro promissor.
Formalizando a questão, podemos dizer: mais que o fim do mundo estamos assistindo ao fim de um tipo de mundo. Enfrentamos uma crise civilizacional generalizada. Precisamos de um novo paradigma de convivência que funde uma relação mais benfazeja para com a Terra e inaugure um novo pacto social entre os povos no sentido de respeito e de preservação de tudo o que existe e vive. Só a partir desta mutação faz sentido pensarmos em alternativas que representem uma nova esperança.
1. Sintomas da crise civilizacional
O sintoma mais doloroso, já constatado há décadas por sérios analistas e pensadores contemporâneos, é um difuso mal-estar da civilização. Aparece sob o fenômeno do descuido, do descaso e do abandono, numa palavra, da falta de cuidado.
— Há um descuido e um descaso pela vida inocente de crianças usadas como combustível na produção para o mercado mundial. Os dados da Organização Mundial da Infância de 1998 são aterradores: 250 milhões de crianças trabalham. Na América Latina 3 em cada 5 crianças trabalham. Na África, uma em cada 3. E na Ásia uma em cada duas. São pequenos escravos a quem se nega a infância, a inocência e o sonho. Não causa admiração se são assassinadas por esquadrões de extermínio nas grandes metrópoles da América Latina e da Ásia.
— Há um descuido e um descaso manifesto pelo destino dos pobres e marginalizados da humanidade, flagelados pela fome crônica, mal sobrevivendo da tribulação de mil doenças, outrora erradicadas e atualmente retornando com redobrada virulência.
— Há um descuido e um descaso imenso pela sorte dos desempregados e aposentados, sobretudo dos milhões e milhões de excluídos do processo de produção, tidos como descartáveis e zeros econômicos. Esses nem sequer ingressam no exército de reserva do capital. Perderam o privilégio de serem explorados a preço de um salário mínimo e de alguma seguridade social.
— Há um descuido e um abandono dos sonhos de generosidade, agravados pela hegemonia do neoliberalismo com o individualismo e a exaltação da propriedade privada que comporta. Menospreza-se a tradição de solidariedade. Faz-se pouco dos ideais de liberdade e de dignidade para todos os seres humanos. Essa situação se aprofundou com a queda do socialismo real e a implosão do bloco soviético. Não obstante suas contradições, essas realidades mantinham sempre ativa a retórica do social, acesa a consciência da cooperação e do internacionalismo.
— Há um descuido e um abandono crescente da sociabilidade nas cidades. A maioria dos habitantes sentem-se desenraizados culturalmente e alienados socialmente. Predomina a sociedade do espetáculo, do simulacro e do entretenimento.
— Há descuido e descaso pela dimensão espiritual do ser humano pelo esprit de finesse (espírito de gentileza) que cultiva a lógica do coração e do enternecimento por tudo o que existe e vive. Não há cuidado pela inteligência emocional, pelo imaginário e pelos anjos e demônios que o habitam. Todo tipo de violência e de excesso é mostrado pelos meios de comunicação com ausência de qualquer pudor ou escrúpulo.
— Há um descuido e um descaso pela coisa pública. Organizam-se políticas pobres para os pobres; os investimentos sociais em seguridade alimentar, em saúde, em educação e em moradia são, em geral, insuficientes. Há um descuido vergonhoso pelo nível moral da vida pública marcada pela corrupção e pelo jogo explícito de poder de grupos, chafurdados no pantanal de interesses corporativos.
— Há um abandono da reverência, indispensável para cuidar da vida e de sua fragilidade. A continuar esse processo, até meados do século XXI terão desaparecido definitivamente, mais da metade das espécies animais e vegetais atualmente existentes. É o que nos informa o conceituado e recente relatório sobre o estado da Terra (The State of Environment Atlas) dos Estados Unidos. Com eles desaparece uma biblioteca de conhecimentos acumulados pelo universo no curso de 15 bilhões de anos de penoso trabalho evolutivo.
— Há um descuido e um descaso na salvaguarda de nossa casa comum, o planeta Terra. Solos são envenenados, ares são contaminados, águas são poluídas, florestas são dizimadas, espécies de seres vivos são exterminadas; um manto de injustiça e de violência pesa sobre dois terços da humanidade. Um princípio de autodestruição está em ação, capaz de liquidar o sutil equilíbrio físico-químico e ecológico do planeta e devastar a biosfera, pondo assim em risco a continuidade do experimento da espécie homo sapiens e demens.
— Há descuido e descaso generalizado na forma de se organizar a habitação, pensada para famílias minúsculas, obrigadas a viver em cômodos insalubres. Milhões e milhões são condenados a viver em favelas sem qualquer qualidade de vida, sob a permanente ameaça de deslizamentos, fazendo a cada ano milhares de vítimas. As formas de vestir de estratos importantes da juventude revelam decadência dos gostos e dos costumes. Recorre-se freqüentemente à violência para resolver conflitos interpessoais e institucionais, normalmente superáveis mediante o diálogo e a mútua compreensão.
Atulhados de aparatos tecnológicos vivemos tempos de impiedade e de insensatez. Sob certos aspectos regredimos à barbárie mais atroz.
2. Remédios insuficientes
Face a esta situação de falta de cuidado, muitos se rebelam. Fazem de sua prática e de sua fala permanente contestação. Mas sozinhos sentem-se impotentes para apresentar uma saída libertadora. Perderam a esperança.
Outros perderam a própria fé na capacidade de regeneração do ser humano e de projeção de um futuro melhor. Vêem no ser humano mais a dimensão de demência do que de sapiência. Resignaram-se na amargura. Depois da vida há coisa pior do que perder o brilho da vida?
Outros têm fé e esperança. Mas propõem remédios inadequados aos sintomas de uma doença coletiva. Não vão à causa real das mazelas. Tratam apenas dos sinais.
Assim, por exemplo, muitos estimam que o mal-estar generalizado resulta do abandono da religião. Esquecendo-se Deus, afirmam, tudo é possível. Com efeito, o ser humano da modernidade entrou num aceleradíssimo processo de secularização. Não precisa de Deus para legitimar e justificar os pactos sociais. A religião persiste mas não consegue ser fonte de sentido transcendente para o conjunto da sociedade.
O ser humano moderno criou um “complexo de Deus”. Comportou-se como se fora Deus. Através do projeto da tecnociência pensou que tudo podia, que não haveria limites à sua pretensão de tudo conhecer, de tudo dominar e de tudo projetar. Essa pretensão colocou exigências exorbitantes a si mesmo. Ele não agüenta mais tanto desenvolvimento que já mostra seu componente destrutivo ao ameaçar o destino comum da Terra e de seus habitantes. Irrompeu nele “o complexo de Deus” que o acabrunha.
Entretanto, cabe perguntar: a religião por si só consegue corrigir esse desvio? Basta tornar as pessoas mais piedosas? Ela pode seguramente revitalizar uma dimensão da existência, o espaço institucional do sagrado e reforçar o seu poder histórico-social. Mas não necessariamente gesta um modo de ser mais solidário e compassivo. Nem ipso facto origina uma espiritualidade capaz de tudo religar e de tudo fundar na Fonte originária.
O decisivo não são as religiões, mas a espiritualidade subjacente a elas. É a espiritualidade que une, liga e re-liga e integra. Ela e não a religião ajuda a compor as alternativas de um novo paradigma civilizatório.
Ao “complexo de Deus” devemos propor “o nascimento de Deus” dentro de cada pessoa e da história da humanidade, e sua epifania no universo.
Outros grupos opinam: para resolver a crise atual, deve-se reforçar a moral e a contenção dos costumes. Em nome dessa proposta mobilizam-se milhões de pessoas em defesa da vida inocente, contra o aborto, pela paz contra a guerra, por uma nova tecnologia mais benevolente para com o meio ambiente. A moral é importante. Mas se não nascer de uma nova redefinição do ser humano e de sua missão no universo, no contexto de uma nova aliança de paz e de sinergia* para com a Terra e com os povos que nela habitam, ela pode decair num moralismo enfadonho e farisaico e transformar-se num pesadelo das consciências. Uma ética nova pressupõe uma ótica nova. Cumpre investir nessa nova ótica, como tentaremos ao largo e ao longo de nossas reflexões.
Outros pensam: precisamos de mais educação, de mais formação e de mais informação. Obviamente, importa socializar os conhecimentos, aumentar a massa crítica da humanidade e democratizar os processos de empoderamento* dos cidadãos. Certamente o saber é imprescindível. Sem ele não debelamos os figadais inimigos da humanidade como a fome, a doença e a incomunicação. O saber nos confere poder. O saber e o poder nos levaram à Lua e já para fora do sistema solar. Mas a serviço de que projeto de ser humano, de sociedade e de mundo utilizamos o poder da ciência e da técnica? A resposta a essa questão pede mais que ciência e técnica. Exige uma filosofia do ser e uma reflexão espiritual que nos fale do Sentido de todos os sentidos e que saiba organizar a convivência humana sob a inspiração da lei mais fundamental do universo: a sinergia, a cooperação de todos com todos e a solidariedade cósmica. Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de sempre mais aprender. Mais do que poder necessitamos de sabedoria, pois só esta manterá o poder em seu caráter instrumental, fazendo-o meio de potenciação da vida e de salvaguarda do planeta.
Todas estas propostas, por sugestivas que sejam, não vão à raiz da questão essencial. Se notamos, por exemplo, uma rachadura na parede, seria enganoso e irresponsável tomar cimento e cal e simplesmente tapá-la. Não seria imperativo analisar os fundamentos que tudo sustentam, geralmente invisíveis e detectar aí a causa da rachadura e saná-la pela raiz? Não seria essa a atitude mais racional e mais sábia? Se um filho começa a mostrar problemas nos estudos, a entregar-se à droga, a voltar de madrugada, de pouco vale culpá-lo e mantê-lo em rédeas curtas. Talvez o problema não esteja nele e sim na incapacidade de trabalhar criativamente as relações familiares destruídas, a contínua tensão entre pai e mãe e a crise financeira do pai que frustra os sonhos do filho e compromete o futuro de toda a família.
3. Insuficiências do realismo materialista
Analisando com mais profundidade, descobrimos por detrás do edifício da modernidade científico-técnica o funcionamento de uma determinada filosofia: o realismo materialista.
Chama-se de realismo a esta filosofia porque imagina que as realidades existem como objetos independentes do sujeito que as observa. Elas, na verdade, não são independentes. Não há objeto sem sujeito e sujeito sem objeto. Há a unidade sagrada da realidade que, como num jogo, sempre inclui a todos como participantes e jamais como meros espectadores. Este realismo é pouco realista porque reduz o âmbito da realidade, ao não incluir nela o fenômeno da subjetividade, da consciência, da vida e da espiritualidade.
Desde tempos imemoriais, todos os povos e culturas se enchiam de veneração face à realidade do Divino que impregna todo o universo; vivenciavam o significado sagrado de todas as coisas e cultivavam a espiritualidade como aquela visão interior que unia tudo à sua Fonte divina. Somente nos últimos quatro séculos surgiu um tipo de humanidade cega a estas dimensões e, por isso, profundamente empobrecida em sua realização no mundo. Ela encurtou a realidade ao tamanho dos cinco sentidos, organizados pela razão analítica.
Esta filosofia se entende materialista, no sentido antigo, porque pressupõe que a matéria (átomos, partículas elementares, vácuo quântico, etc.) constitui a única realidade consistente; os demais fenômenos são derivações secundárias dela. Não assimilou ainda o fato de que a matéria não é simplesmente “material” mas é energia estabilizada, cheia de interações complexas. A matéria, como a filologia da palavra sugere, é mãe de todas as coisas, até da vida que é a autoorganização* da matéria. Ainda não se criou a consciência de que o visível é parte do invisível.
Hoje os sinos dobram sobre o realismo materialista. A física quântica demonstrou a profunda interconexão de tudo com tudo e a ligação indestrutível entre realidade e observador; não há realidade em si, desconectada da mente que a pensa; ambas são dimensões de uma mesma realidade complexa. O universo é consciente. A moderna cosmologia* demonstrou que este universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um Espírito Sagrado e uma Mente infinitamente ordenadora.
A nova filosofia apresenta-se holística*, ecológica e espiritual. Ela funda uma alternativa ao realismo materialista, com capacidade de devolver ao ser humano o sentimento de pertença à família humana, à Terra, ao universo e ao propósito divino.
Assim se supera o dado mais grave que se esconde por detrás da falta de cuidado: a perda da conexão com o Todo; o vazio da consciência que não mais se percebe parte e parcela do universo; a dissolução do sentimento do Sagrado face ao cosmos e a cada um dos seres; e a ausência da percepção da unidade de todas as coisas, ancoradas no mistério do Supremo Criador e Provedor de tudo.
Sobre o conjunto destas questões devemos refletir com atenção até construirmos um novo estado de consciência. É a pré-condição para gestarmos uma atitude de maturidade e de sabedoria que nos ajudará a buscar outros caminhos, diferentes dos já trilhados até agora. Após séculos de cultura material, buscamos hoje ansiosamente uma espiritualidade simples e sólida, baseada na percepção do mistério do universo e do ser humano, na ética da responsabilidade, da solidariedade e da compaixão, fundada no cuidado, no valor intrínseco de cada coisa, no trabalho bem feito, na competência, na honestidade e na transparência das intenções.
4. Indicações para o caminho certo
Importa buscar respostas, inspiradas em outras fontes e em outras visões de futuro para o planeta e para a humanidade.
Estas respostas não se encontram prontas em algum recanto privilegiado da Terra. Nem em algum livro ancestral. Nem em mestres e gurus com novas ou antigas técnicas de espiritualização. Nem em alguma profecia escondida. Nem em iniciações rituais e mágicas. Nem simplesmente em caminhos terapêuticos à base de produtos naturais. Devemos aprender de todas estas propostas, mas cavar mais fundo, ir mais longe e evitar soluções calcadas sobre uma única razão. Importa inserir outras dimensões para enriquecer nossa visão.
Neste sentido as respostas vêm sendo formuladas concretamente pelo conjunto das pessoas que ensaiam práticas significativas em todos os lugares e em todas as situações do mundo atual. Portanto, não há um sujeito histórico único. Muitos são os sujeitos destas mudanças. Elas se orientam por um novo sentido de viver e de atuar Por uma nova percepção da realidade e por uma nova experiência do Ser. Elas emergem de um caminho coletivo que se faz caminhando.
Com efeito, cresce seminalmente um novo paradigma* de re-ligação, de re-encantamento pela natureza e de compaixão pelos que sofrem; inaugura-se uma nova ternura para com a vida e um sentimento autêntico de pertença amorosa à Mãe-Terra. Essa viragem se mostra pelo crescimento dos grupos que cultivam a ecologia, a meditação e a espiritualidade; cresce o número dos que acompanham com atenção o impacto ambiental dos projetos realizados pelas empresas privadas ou pelo estado; muitos são os que, em todas as questões abordadas, incorporam a perspectiva da Terra como um todo vivo e orgânico. Mais e mais pessoas procuram alimentar-se com produtos naturais e mantêm sob severo controle o nível de contaminação e quimicalização dos produtos. Aumenta a consciência da corresponsabilidade pelo único planeta que temos, por sua imensa biodiversidade e porcada ser ameaçado de extinção. Aumenta o senso de solidariedade para com populações dizimadas pela fome ou por alguma catástrofe natural. Mobilizam-se grupos e a opinião pública em defesa dos direitos dos animais e dos direitos humanos sociais e culturais; há um notável esforço de superação do patriarcalismo e pelo fortalecimento da dimensão da anima* no homem e na mulher, pelo apoio às mulheres, às minorias socialmente discriminadas que podem representar milhões e milhões de pessoas como os negros, os povos originários, os portadores de alguma deficiência ou doença, etc. A espiritualidade cósmica volta a animar espíritos sensíveis à mensagem que emana do universo e da natureza. Tradições religiosas e espirituais se revitalizam em contacto com os desafios do nosso tempo.
Sente-se a urgência de um novo ethos* civilizacional que nos permitirá dar um salto de qualidade na direção de formas mais cooperativas de convivência, de uma renovada veneração pelo Mistério que perpassa e que sustenta o processo evolutivo.
Por toda parte se formulam ânsias por uma nova aliança de paz perene com as demais espécies e com a Terra. Esse novo contrato social se assenta na participação respeitosa do maior número possível, na valorização das diferenças, na acolhida das complementaridades e na convergência construída a partir da diversidade de culturas, de modos de produção, de tradições e de sentidos de vida.
5. Uma nova ética a partir de uma nova ótica
Em momentos críticos como os que vivemos, revisitamos a sabedoria ancestral dos povos e nos colocamos na escola de uns e outros. Todos nos fazemos aprendizes e aprendentes. Importa construir um novo ethos* que permita uma nova convivência entre os humanos com os demais seres da comunidade biótica, planetária e cósmica; que propicie um novo encantamento face à majestade do universo e à complexidade das relações que sustentam todos e cada um dos seres.
Ethos* em seu sentido originário grego significa a toca do animal ou casa humana, vale dizer, aquela porção do mundo que reservamos para organizar, cuidar e fazer o nosso habitat. Temos que reconstruir a casa humana comum — a Terra — para que nela todos possam caber. Urge modelá-la de tal forma que tenha sustentabilidade para alimentar um novo sonho civilizacional. A casa humana hoje não é mais o estado-nação, mas a Terra como pátria/mátria comum da humanidade. Esta se encontrava no exílio, dividida em estados-nações, insulada em culturas regionais, limitada pelas infindáveis línguas e linguagens. Agora, lentamente, está regressando de seu longo exílio. Está se reencontrando num mesmo lugar: no planeta Terra unificado. Nele fará uma única história, a história da espécie homo, numa única e colorida sociedade mundial, na consciência de um mesmo destino e de uma igual origem.
Esse ethos* (modelação da casa humana) ganhará corpo em morais* concretas (valores, atitudes e comportamentos práticos) consoante as várias tradições culturais e espirituais. Embora diversas, todas as propostas morais alimentarão o mesmo propósito: salvaguardar o planeta e assegurar as condições de desenvolvimento e de co-evolução do ser humano rumo a formas cada vez mais coletivas, mais interiorizadas e espiritualizadas de realização da essência humana.
De onde vamos derivar esse novo ethos* civilizacional? Ele deve emergir da natureza mais profunda do humano. De dimensões que sejam por um lado fundamentais e por outro compreensíveis para todos. Se não nascer do cerne essencial do ser humano, não terá seiva suficiente para dar sustentabilidade a uma nova florada humana com frutos sadios para a posteridade.
Devemos todos beber da própria fonte. Auscultar nossa natureza essencial. Consultar nosso coração verdadeiro. Essa dimensão fontal deverá suplantar a desesperança imobilizadora e a resignação amarga. Deverá, outrossim, complementar os caminhos insuficientes referidos acima. Quer dizer, essa dimensão fontal será a base para um novo sentimento religioso. Criará um novo sentido ético e moral. Propiciará uma nova razão, instrumental, emocional e espiritual que transformará a ciência, a tecnologia e a crítica em medicinas para a Terra e para a humanidade. Uma nova ética nascerá de uma nova ótica.
Qual será essa ótica? Qual será essa dimensão seminal do humano, capaz de sustentar uma nova aventura histórica? De que ethos precisamos? Daquele que se opõe à falta de cuidado, ao descuido, ao descaso e ao abandono?
II - CUIDADO: o ethos do humano
O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilizaçáo e de envolvimento afetivo com o outro.
A atitude é uma fonte, gera muitos atos que expressam a atitude de fundo. Quando dizemos, por exemplo: “nós cuidamos de nossa casa” subentendemos múltiplos atos como: preocupamo-nos com as pessoas que nela habitam dando-lhes atenção, garantindo-lhes as provisões e interessando-nos com o seu bem-estar Cuidamos da aura boa que deve inundar cada cômodo, o quarto, a sala e a cozinha. Zelamos pelas relações de amizade com os vizinhos e de calor com os hóspedes. Desvelamo-nos para que a casa seja um lugar de benquerença deixando saudades quando partimos e despertando alegria quando voltamos. Alimentamos uma atitude geral de diligência pelo estado físico da casa, pelo terreno e pelo jardim. Ocupamo-nos do gato e do cachorro, dos peixes e dos pássaros que povoam nossas árvores. Tudo isso pertence à atitude do cuidado material, pessoal, social, ecológico e espiritual da casa.
1. O cuidado como modo-de-ser essencial
Entretanto, o cuidado é ainda algo mais que um ato e uma atitude entre outras. Disse-o o filósofo que melhor viu a importância essencial do cuidado, Martin Heidegger (1889-1976) em seu famoso Ser e Tempo: “Do ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de fato”. Quer dizer, o cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. E, se fizer, ela sempre vem acompanhada de cuidado e imbuída de cuidado. Significa reconhecer o cuidado como um modo-de-ser essencial, sempre presente e irredutível à outra realidade anterior. É uma dimensão fontal, originária, ontológica*, impossível de ser totalmente desvirtuada.
Um modo-de-ser não é um novo ser. É uma maneira do próprio ser de estruturar-se e dar-se a conhecer O cuidado entra na natureza e na constituição do ser humano. O modo-de-ser cuidado revela de maneira concreta como é o ser humano.
Sem o cuidado, ele deixa de ser humano. Se não receber cuidado, desde o nascimento até a morte, o ser humano desestrutura-se, definha, perde sentido e morre. Se, ao largo da vida, não fizer com cuidado tudo o que empreender, acabará por prejudicar a si mesmo e por destruir o que estiver à sua volta. Por isso o cuidado deve ser entendido na linha da essência humana (que responde à pergunta: o que é o ser humano?). O cuidado há de estar presente em tudo. Nas palavras de Martin Heidegger: “cuidado significa um fenômeno ontológico*-existencial básico”. Traduzindo: um fenômeno que é a base possibilitadora da existência humana enquanto humana.
Podemos responder de muitas e de diferentes maneiras à pergunta: o que é o ser humano? A questão e sua correspondente resposta encontram-se subjacentes nas formações sociais, nas diferentes visões de mundo, nas diversas filosofias, ciências e projetos elaborados pelo ingênio humano.
A resposta latente e inconsciente, porém, se torna patente e consciente, quando formulamos a seguinte questão: que imagem de ser humano está sepultada numa cultura como a nossa que privilegia acima de tudo a racionalidade científico-técnica? A resposta natural será: o ser humano é um animal racional. Que imagem se oculta no modo de produção capitalista e na economia exclusivamente de mercado? A resposta óbvia será: o ser humano é essencialmente um ser de necessidades (um animal faminto) que devem ser satisfeitas e, por isso, um ser de consumo. Que imagem de ser humano subjaz ao ideal democrático? A resposta conseqüente será: o ser humano é um ser de participação, um ator social, um sujeito histórico pessoal e coletivo de construção de relações sociais o mais igualitárias, justas, livres e fraternas possíveis dentro de determinadas condições histórico-sociais. Que idéia de ser humano está pressuposta na luta pelos direitos humanos? A resposta clara será: o ser humano vem dotado de sacralidade porque é sujeito de direitos e de deveres inalienáveis e se mostra como um projeto infinito. Que compreensão de ser humano está subentendida no projeto científico-técnico de dominação da natureza? A resposta mais provável será: o ser humano se entende (ilusoriamente) como o ápice do processo de evolução, o centro de todos os seres (antropocentrismo) e considera que as demais coisas, especialmente a natureza, só têm sentido quando ordenadas ao ser humano; ele pode dispor delas ao seu bel-prazer. Quando o místico São João da Cruz diz que o ser humano é chamado a ser Deus por participação, que imagem pressupõe do ser humano? A resposta ousada será: o ser humano tem a capacidade de dia- logar com o Mistério do mundo, perguntar por um último Sentido e entrar em comunhão com Ele e ser um com Ele. Por fim, que imagem de ser humano projetamos quando o descobrimos como um ser-no-mundo-com-outros sempre se relacionando, construindo seu habitat, ocupando-se com as coisas, preocupando-se com as pessoas, dedicando-se àquilo que lhe representa importância e valor e dispondo-se a sofrer e a alegrar-se com quem se sente unido e ama? A resposta mais adequada será: o ser humano é um ser de cuidado, mais ainda, sua essência se encontra no cuidado. Colocar cuidado em tudo o que projeta e faz, eis a característica singular do ser humano.
Convém sempre explicitar a imagem de ser humano subjacente em nossas visões de mundo, emnossos projetos e em nossas práticas. Pois assim conscientizamos o que queremos ser e podemos, continuamente, submeter essa imagem à crítica e a um possível aperfeiçoamento.
A humanidade abriu muitos caminhos na decifração da essência do ser humano. Serviu-se das artes, da pintura nas cavernas rupestres, dos desenhos em vasos de barro. Expressou-se pelos grandes monumentos, por miniaturas de marfim e por uma gama imensa de músicas folclóricas. Utilizou a palavra através de mitos, fábulas, poemas e narrativas. Usou do pensamento através da filosofia e das cosmovisões. As religiões, através dos mitos da criação, do fim do mundo e da plasmação do ser humano, ofereceram as decifrações mais ousadas da natureza humana. Hoje em dia prefere-se o cinema, o universo virtual da comunicação e principalmente as ciências empíricas, hermenêuticas e holísticas. Todas elas implicitamente encerram uma antropologia, quer dizer, uma determinada compreensão do ser humano, homem e mulher.
2. Os mitos: um conhecimento ancestral da essência humana
Todas estas achegas são de imenso valor. Na medida do possível iremos incorporar as várias contribuições em nosso trabalho. Contudo, por nossa parte, vamos privilegiar um outro caminho, aquele dos mitos. Estimamos que as mitologias, mais que as ciências e as filosofias, encerram,junto com as religiões, os grandes elucidamentos da essência humana. Aí as culturas projetaram, geração após geração, grandes visões, acumularam reflexões, fizeram aprofundamentos e os passaram a seus pósteros. Souberam usar de uma linguagem plástica, com imagens tiradas das profundezas do inconsciente coletivo, acessível a todas as idades ea todos os tempos. Além das visões e dos símbolos, suscitaram e continuam suscitando grandes emoções. E são essas que ficam e mobilizam as pessoas e os povos na história.
Não é seguro que nós modernos, com nossa inteligência instrumental, com toda nossa tradição de pesquisa empírica, de crítica e de acumulação de saberes sobre praticamente tudo, conheçamos mais o ser humano que os antigos formuladores de mitos. Estes se revelaram observadores meticulosos e sábios exímios de cada situação e de cada dobra da existência. Convém revisitá-los, valorizar suas contribuições e escutar suas lições, sempre atuais.
Vamos, pois, perseguir o caminho dos mitos. Entretanto, há de se entender corretamente os mitos. Eles não são coisas do passado arcaico, produtos aleatórios do pensamento primitivo ou da fantasia incontrolada. São atuais, porquanto nós, modernos, também criamos mitos.
Os mitos são linguagens para traduzir fenômenos profundos, indescritíveis pela razão analítica. Como falar do enamoramento, do amor, do cuidado essencial, da traição da pessoa amada, das crises da vida, das doenças incuráveis, do nascimento e da morte senão com emoção, contando estórias exemplares? Os conceitos abstratos e frios não conseguem traduzir as cores da realidade. Não geram figurações na imaginação. Por isso, de certa forma, falseiam nossa experiência dos fenômenos vividos.
Como bem se disse, a linguagem consagrada da psicologia científica vigente representa, em boa parte, um insulto à alma porque, na elaboração de seus instrumentos de análise, deixa de fora as energias poderosas, verdadeiros deuses e deusas que habitam a profundidade humana, as imagens eos símbolos. Preferem os conceitos abstratos, extraídos de um paradigma que privilegiava a física e a mecânica. Devemos, pois, saber combinar inteligência instrumental-analítica, donde nos vem o rigor científico, com inteligência emocional-cordial, donde derivam as imagens e os mitos.
As deusas e os deuses mitológicos não devem ser considerados como existentes em si mesmos, seres substanciais e independentes de nossa existência. Configuram arquétipos* do inconsciente coletivo, vale dizer, centros de grande energia e significação, que somente através da linguagem dos heróis e das heroínas, dos deuses e das deusas podem ser expressos adequadamente. São figuras carregadas de emoção, feitas referências paradigmáticas e inspirações mobilizadoras para os comportamentos humanos.
O politeísmo não representa um estágio inferior da evolução religiosa rumo ao monoteísmo. Bem compreendido, não quer tanto afirmar a multiplicidade de divindades, mas as mil faces da mesma e única Divindade, do único Mistério de comunhão, vinculado à dinâmica aberta do mundo e do espírito. O monoteísmo, por sua vez caminha pari passu com o surgimento de visões imperiais unitaristas que empobrecem a polivalência do sagrado.
Entendidas como forças espirituais poderosas, as múltiplas divindades representam os muitos centros energéticos e as diferentes fontes de sentido que estruturam a interioridade humana. Esta interioridade é habitada pela Divindade. Por isso somos seres espirituais além de corporais e psíquicos. Espiritual e psiquicamente não somos monoteístas, mas plurais. Temos muitos centros vitais e não apenas um. Nem somos dominados por um deles, seja a razão, seja o poder, seja o desejo, seja o coração. Mas somos perpassados e circundados por muitos; eles fazem a vida humana dinâmica e também dramática. Todos, pois, se encontram articulados na existência singular de cada pessoa. Através de cada uma dessas energias temos acesso à Energia suprema que habita no universo e no coração humano.
Vamos analisar uma fábula-mito que nos fala da essência humana, de uma forma que atende aos reclamos mais urgentes de nosso tempo. É a fábula-mito do cuidado. E no cuidado que vamos encontrar o ethos* necessário para a socialidade humana e principalmente para identificar a essência fontal do ser humano, homem e mulher. Quando falamos de ethos* queremos expressar o conjunto de valores, princípios e inspirações que dão origem a atos e atitudes (as várias morais) que conformarão o habitat comum e a nova sociedade nascente. É urgente um novo ethos* de cuidado, de sinergia*, de re-ligação, de benevolência, de paz perene para com a Terra, para com a vida, para com a sociedade e para com o destino das pessoas, especialmente das grandes maiorias empobrecidas e condenadas da Terra.
III - A fábula-mito do cuidado
A fábula-mito sobre o cuidado essencial é de origem latina com base grega. Ela ganhou expressão literária definitiva pouco antes de Cristo em Roma.
Aqui a versão livre em português:
“Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter.
Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado.
Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome.
Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada.
De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa:
“Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura.
Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer.
Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver.
E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.
É a partir do texto dessa fábula-mito que vamos construir nossas reflexões sobre o cuidado. Será visto como a verdadeira essência do ser humano. Antes, porém, vamos conhecer o autor desta inspirada criação literária.
IV - Um escravo genial: Gaius Julius Hyginus
Os mitos não têm autor. Pertencem à sabedoria comum da humanidade, conservada pelo inconsciente coletivo sob a forma de grandes símbolos, de arquétipos e de figuras exemplares. Em cada geração emerge na consciência sob mil rostos. Através deles transmite-se sempre a mesma mensagem essencial. Ilumina caminhos e inspira práticas. No entanto, há momentos em que o mito ganha uma formulação clássica. Hesíodo, na Grécia (meados do século VIII aC), Ovídio, em Roma (43 aC-17 dC), os irmãos Grimm, na Alemanha (1785-1863) e Luiz da Câmara Cascudo, no Brasil (1898-1986) foram alguns desses escribas inspirados.
Assim ocorreu com a fábula-mito do cuidado essencial, também conhecida como “a fábula de Higino*”. Como asseveramos, o importante não é o autor da narrativa do mito mas sua significação. Apesar disso, não deixa de ser interessante conhecer quem foi Higino e porque ele mesmo se transformou numa figura-mito.
1. A saga de Higino
Seu nome completo é: Gaius Julius Hyginus. Atentemos para o contexto de seu aparecimento.
Corria o ano 44 antes de Cristo. Caio Júlio César (100-44 aC), famoso general, cônsul e fundador da dinastia dos Césares romanos foi assassinado em pleno Senado por seu filho adotivo Brutus. Para sucede-lo, criou-se um triunvirato, constituído por três cônsules: seu neto adotivo Caio Júlio César Otávio (63 aC-14 dC), Marco Antônio (83-30 aC) e Marcos Emílio Lépido (falecido no ano 12 aC).
Os três logo se desentenderam. Cada um disputava o poder absoluto. Otávio, mais hábil e astuto, venceu seus dois concorrentes. No ano 27 antes de Cristo fez-se proclamar imperador, apropiando-se do título Augustus, até então somente reservado aos deuses. A partir de então se chamou César Augusto. Foi sob seu império que nasceu Jesus Cristo, fato que para nós cristãos não é destituído de importância.
No ano 47 antes de nossa era, ainda em plena disputa pelo poder, Otávio entrara, vitorioso, em Alexandria, grande cidade no norte do Egito, famosa por sua cultura, por suas escolas filosóficas e por suas bibliotecas. Foi nessa ocasião que encontrou Higino, jovem brilhante por sua inteligência e por sua vasta cultura, não obstante seus 22 anos. Fascinado, decidiu levá-lo consigo para Roma.
Como soía acontecer naquele tempo, todo general vencedor podia tomar como escravos as pessoas que despertassem seu interesse. Seus escravos eram muitas vezes preceptores dos filhos em língua e cultura gregas. Como sinal público da posse, impunham-lhes seu próprio nome. Foi assim com Higino. Passou a ser chamado Caio Júlio Higino, embora historicamente seja conhecido simplesmente como Higino.
Em Roma, passado algum tempo, Augusto o libertou. Manteve-o, entretanto, a seu serviço. Encaminhou-o à melhor escola da época, dirigida por Alexandre Polihistor, antigo escravo de Alexandria, também ele liberto. Este era diretor da famosa Biblioteca Palatina fundada por Augusto no ano 28 aC.
As bibliotecas na Antiguidade eram mais que nossas bibliotecas atuais. Equivaliam às fundações culturais ou às academias dos dias de hoje. Nelas não havia apenas livros, mas cursos de todo tipo, desde teologia, história, botânica até astrologia. Lá se davam freqüentes disputas filosóficas e se realizavam encontros de intelectuais, de poetas e de historiadores.
Nesse ambiente de efervescência cultural, Higino fez brilhante carreira. Entusiasmado com seu antigo escravo, César Augusto, que tudo acompanhava, confiou-lhe a Biblioteca Apollinis. Isso significava que Higino podia abrir seus próprios cursos e organizar a atividade intelectual em contacto direto com os melhores espíritos da época e com os muitos livros da biblioteca. Tinha então apenas 30 anos.
Com a morte de Alexandre Polihistor, César Augusto o nomeou diretor da biblioteca central, isto é, da Biblioteca Palatina. A partir daí, por mais de 40 anos animou toda a vida cultural de Roma. Conta-se que com a idade de 70 anos ainda trabalhava.
O grande poeta Ovídio (43 aC-17 dC) era seu amigo íntimo. O próprio Virgílio (70 aC-19 dC), considerado o maior poeta latino, foi seu aluno.
Segundo os historiadores, Higino morreu pobre no ano 10 de nossa era, pois não sabia administrar bem seus negócios. Ovídio, em solidariedade à sua desdita, dedicou-lhe uma ode com o título “Tristia Hygin” que significa “Os insucessos de Higino”.
2. A obra de Higino
Higino aproveitou os contactos e as fontes da biblioteca para escrever uma obra numerosa. Produziu textos teológicos sobre as características dos deuses (De proprietatibus deorum), especialmente sobre os deuses familiares (De dis penatibus). Especializou-se em biografias. Publicou seis tomos sobre a vida e as obras de pessoas ilustres do mundo e de Roma (De vita rebusque illustrium virorum e De viribus illustribus urbis Romae). Dedicou-se também à ecologia e fez minuciosas descrições geográficas sobre as cidades itálicas (De situ urbium Italicorum) e sobre a agricultura. Escreveu a primeira monografia conhecida sobre as abelhas (De apibus). Discorreu sobre astronomia e astrologia (De mundi et sphaerae; De signorum coelestium historiis; De astrologia). Como se depreende, um homem inquieto e de múltiplos interesses intelectuais.
Sua obra principal que nos interessa diretamente chama-se: Fábulas ou Genealogias (Fabulae seu Genealogiae). Trata-se da recopilação de 300 legendas, histórias e mitos da tradição grega e latina. Obra imensa, porém desigual. Contém materiais das mais diversas procedências, com estilos diferentes; encerra até contradições. Isso fez pensar que o livro das Fábulas não fosse exclusivamente de Higino. Culto e refinado como era, pensava-se, não teria incorrido em erros e em contradições manifestas. Estas corriam por conta de outras mãos que teriam interferido no texto.
Outros, entretanto, tiveram interpretações diferentes: Higino teria respeitado os materiais assim como os encontrara. Apenas ordenou-os. Alguns, sim, foram retrabalhados por ele com esmero e estética, pois nisso era mestre refinado.
É o que parece ter ocorrido com a fábula-mito de número 220 que acabamos de transcrever. Sua origem seria grega, reelaborada, entretanto, por Higino nos termos da cultura romana. Tornou-se concisa e de grande beleza literária.
A seguir procuraremos analisar aspectos antropológicos, filosóficos e éticos do relato.
V - A explicação da fábula-mito do cuidado
Expliquemos agora os figurantes desta bela fábula-mito. Tal diligência nos fornecerá elementos básicos para iluminar a essência humana e fundamentar o ethos* para um novo tempo.
1. O que é uma fábula? O que é um mito?
Antes de mais nada deixemos claro o que entendemos por fábula e por mito.
Fábula é uma narrativa imaginária cujos personagens são, via de regra, animais, plantas ou a personificação de qualidades, virtudese vícios, com o objetivo de transmitir lições morais ou tornar concreta uma verdade abstrata. Conhecidas são as fábulas de La Fontaine (1621-1695) como, por exemplo, a da raposa e das uvas.
No nosso caso, Higino* personifica a dimensão “cuidado”. “Cuidado” passeia pela praia, observa o pedaço de barro, põe-se a imaginar e acaba moldando um boneco de argila. Discute com Júpiter e com a Terra. Acata a sentença de Saturno.
Essa fábula é urdida com figuras mitológicas greco-latinas de grande significação simbólica, como Júpiter, Terra e Saturno. Em razão disso chamamos essa fábula de fábula-mito. O que é, então, um mito?
Mito é algo muito complexo pelas ambigüidades que encerra. Na linguagem comum da comunicação de massa, mito pode veicular uma visão reducionista, ocultadora e interesseira da realidade. Equivale, então, à ideologia. Mito designa, portanto, clichês ou crenças coletivos acerca de temas relevantes (pessoas, situações, acontecimentos) que circulam na cultura. Assim se fala do “mito do bom selvagem”, do “mito do sexo frágil” ou do “mito do negro preguiçoso”.
Com essas expressões se quer transmitir a crença de que o indígena é um selvagem sempre bom como um ser natural e não contaminado pela cultura; essa compreensão representa um clichê reducionista, porque o indígena tem cultura, intervém, a seu modo, na natureza e como outros seres sociais tem sua dimensão sim-bólica e dia-bólica.
A cultura patriarcal qualificou de fraca a mulher e forjou o mito do sexo frágil, o que não é verdade. A mulher tem a sua forma de ser forte. Neste caso o que conta não é tanto a força muscular. No trato com os filhos, desde sua gestação, nas crises de passagem e no seu acompanhamento ao largo da vida, especialmente na condução da complexidade de uma casa e na capacidade de suportar sofrimentos e suplantar obstáculos, ela mostra uma força e uma pertinácia que deixa o homem longe para trás. Em muitos aspectos a mulher é o sexo forte e o homem o sexo fraco.
A acusação de que o negro é preguiçoso, além de ser inverdade, é calúnia. Quase tudo que se construiu nos países escravagistas como o Brasil, a Colômbia, o Caribe e o Sul dos Estados Unidos veio da mão-de-obra negra escrava. Os negros mostraram grande diligência, apesar de serem tratados como “peças”, carvão a ser consumido na máquina da produção. Ademais foi o grupo que possivelmente mais impregnou de valores a cultura brasileira e norte-americana com elementos que vão da culinária, da música, da linguagem até à doçura nas relações e ao misticismo. Eles, embora escravos, foram agentes civilizadores.
Mito, para outros, equivale à mera fantasia ou a uma interpretação distorcida da realidade. Mito se oporia, então, a realidade. Assim, por exemplo, os propalados efeitos positivos dos adoçantes artificiais sobre o organismo são, para os nutricionistas sérios, um mito e não uma realidade. Se por um lado não possuem calorias, por outro aceleram o processo de desgaste dos neurônios, abrindo caminho para a geração da esclerose. Assim se diz também que alguém é acometido de mitomania. Quer dizer, tem a mania de inventar “mitos”, acontecimentos fictícios, factóides, ou mania de projetar interpretações mirabolantes da realidade.
Não assumimos essas acepções, pois elas não nos ajudam a entender o fenômeno que queremos analisar Por isso as ciências modernas criticam tais acepções; conferem ao mito um significado altamente positivo, especialmente na filosofia, antropologia, psicologia do profundo e na teologia contemporânea.
A escola psicanalítica junguiana afirma, por exemplo, que certa pessoa virou mito quando viveu uma biografia (um relato existencial ou saga) com tal densidade que muitos se reencontram a si mesmos nela ou por ela vêem realizados ideais e sonhos ancestrais. Semelhantemente fala-se do mito futebolístico de Pelé, do mito cinematográfico de Charles Chaplin, do mito midiológico da princesa Diana, do mito ético-político de Mahatma Gandhi e do mito profético-religioso de Dom Hélder Câmara ou de Luther King Jr. Tais pessoas se transformam em símbolos poderosos, quer dizer, mitos, capazes de cristalizar energias coletivas, falar ao profundo das pessoas e mobilizar multidões.
Mais ainda. A antropologia e a filosofia das formas simbólicas nos convenceram de que o mito constitui uma forma autônoma de pensamento, diferente da razão. E tão legítima como qualquer outra. Constitui uma expressão da inteligência emocional, distinta da inteligência funcional. Esta informa sobre objetos; é utilitária, calculadora e instrumental; é a arma da ciência e da técnica, imprescindível ao funcionamento da vida no seu dia-a-dia. Aquela, a inteligência emocional, utiliza imagens, símbolos, parábolas, contos e mitos para evocar sentimentos profundos, expressar o que dá sentido e valor ao ser humano. Ela toca o coração e provoca emoções. Os poetas, os mestres religiosos e espirituais corno Jesus, Isaías, Maomé, Buda, o místico sufi Rumi, o papa João XXIII, Dalai Lama e outros utilizam a inteligência emocional. Assim fazem também os meios de comunicação modernos, especialmente as estratégias de marketing e propaganda.
Normalmente o mito se comunica mediante narrativas que utilizam símbolos e representações poderosas, como deuses e deusas confrontos entre o céu e a terra para expressar situações ou histórias verdadeiras, carregadas de dramaticidade e significação, vividas, desde sempre, pela humanidade. Ou procuram explicar o surgimento de realidades que, para certas comunidades, têm especial significação e valor, como o nome de um lugar, a importância de um certo animal, de uma montanha ou de certo comportamento exemplar, para o bem ou para o mal. O mito configura sempre representações da consciência coletiva, ditas e reditas em cada geração.
Bem dizia Joseph Campbell, mestre contemporâneo da compreensão dos mitos: “Os sonhos são mitos privados; os mitos são sonhos partilhados”. Não sem razão, o fundador da psicologia das profundezas Carl Gustav Jung (1875-1961) entendia os mitos como conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo. Explicando: os mitos representam a emergência de imagens das grandes experiências, de sonhos e temores (arquétipos) que a humanidade elaborou historicamente em seu longo processo de individualização. Eles emergem na consciência das pessoas e das coletividades. Conhecem metamorfoses que desdobram virtualidades escondidas, garantindo-lhes atualidade histórica. Eles ajudam a entender a universalidade de certas experiências e apontam para as várias travessias que caracterizam a aventura humana.
2. Exemplos de mitos e fábulas exemplares
Para ilustrar essas reflexões teóricas nada melhor do que fornecer dois exemplos concretos de mito no sentido que explanamos acima, um dos gregos e outro dos povos da floresta brasileira.
Conhecido é o mito grego de Eros, deus do amor. Notoriamente o amor é a força mais originária do universo. Segundo o mito, o amor é anterior ao céu e à terra. Em sua versão mais antiga, Eros nasceu do caos e da Noite. Portanto, de uma realidade anterior e mais originária. A Noite pôs um ovo fecundado. Dele nasceu Eros, o amor. Das duas metades da casca, nasceram o Céu (Urano) e a Terra (Géia). Por força de Eros, o Céu e a Terra se apaixonaram, se uniram e geraram as diversas coisas existentes no mundo. Essas coisas, por sua vez, também se atraem e se amam. Buscam unir-se pelo amor Eros, pois, é responsável pela diversidade (céu e terra e todas as coisas) e, ao mesmo tempo, pela unidade de todas as coisas (atração que tudo, pessoas e coisas sentem umas pelas outras).
Belíssimo é também o mito tupi da mandioca, alimento básico de várias culturas indígenas. Conta-se que um dia certo cacique ganhou uma linda netinha. Sua pele era branca como a nuvem mais branca. Mandi era seu nome. Todos ficaram intrigados e amedrontados quando viram a cor da pele de Mandi. Na tribo os olhares se cruzavam comparando o castanho-dourado de suas peles com a alvura da linda menina. E acreditaram que o fato significava um triste presságio. Pediram, então, ao cacique, sem meias-palavras, que fizesse desaparecer sua netinha. Ele, no entanto, cheio de amor e compaixão, foi protelando tal crueldade dia após dia. Até que no silêncio de uma certa noite, ainda de madrugada, foi ao rio, levando a netinha. Lavou-a cuidadosamente. No dia que se seguiu, reuniu a tribo e disse com voz forte para não tolerar objeções: os espíritos recomendaram que Mandi fique entre nós e que seja bem tratada por todos da tribo. Os índios, ainda em dúvida, obedeceram e acabaram se resignando. Com o passar do tempo, Mandi foi crescendo com tanta graça que todos esqueceram o mau presságio e acabaram por ser cativados por ela. O cacique estava orgulhoso e feliz. Mas um dia, inesperadamente, Mandi morreu. Os pais, sabendo o quanto o avô-cacique a amava, enterraram-na em sua maloca. Mas ele, inconsolável, fechou-se em sua dor e nada fazia senão chorar. Chorava dia e noite sobre a tumba de sua querida Mandi. Tantas e tantas foram as lágrimas que do chão brotou uma plantinha. Os pássaros vinham bicá-la e ficavam inebriados. Conta o mito que, um dia, a terra se abriu para deixar à mostra as belas raízes da planta, nascida do pranto do avô. Os índios, respeitosos, as colheram e logo viram que eram branquíssimas como a pele de Mandi. E, ao comê-las, perceberam que eram deliciosas. E assim foi que aquelas raízes se fizeram o principal alimento dos índios tupi. Chamaram então as raízes de Mandioca que significa “o corpo de Mandi”.
Como se depreende destes dois exemplos, o mito quer expressar valores de grande irradiação que não podem ser adequadamente expressos por conceitos. Criam-se, então, estórias. Estórias são narrativas carregadas de emoção, de símbolos e representações, para dar razões ao mistério do amor e à importância da mandioca na dieta dos povos da floresta. Eis a riqueza do mito. Cada um se encontra a si mesmo nos grandes mitos ou encontra razões para realidades tão fundamentais como o amor e a comida.
Algo parecido ocorre com o cuidado. O cuidado é tão importante para a vida humana e para a preservação de todo tipo de vida, que deu origem a uma fábula-mito. Foi personalizado, virou um ser concreto. Como tal, o cuidado molda a argila. Conversa com o céu (Júpiter) e a terra (Tellus). Convoca a autoridade suprema do deus do céu e da terra que fundou a idade de ouro e a utopia absoluta do ser humano (Saturno). A fábula-mito do cuidado elaborada por Higino quer explicar o sentido do cuidado para a vida humana. No seu surgimento atuaram as forças universais mais importantes: o céu (Júpiter), a terra (Tellus), a história e a utopia (Saturno).
Ela recolhe ainda uma experiência testemunhada em muitas culturas do Ocidente e do Oriente: a criação do ser humano a partir do barro da terra, plasmado a partir do húmus que significa terra fértil. De húmus deriva seu nome: homem, filho e filha da terra fecunda (húmus), como o relato bem o diz. Algo semelhante sinalizam os dois primeiros capítulos do Gênesis: Adão é feito do barro da terra.
A palavra hebraica para terra é Adamah. De Adamah vem Adam que significa o filho e a filha da terra.
A fábula-mito testemunha também que o ser humano não pode ser interpretado apenas a partir da terra (Tellus). Ele possui algo do céu, do divino (Júpiter). Por isso, o relato conta que esse barro não permaneceu inerte. Recebeu da divindade o princípio de vida, o espírito. Só então é realmente ser humano completo. É Júpiter, a divindade suprema, que lhe infunde espiritualidade. Cabe perguntar para melhor compreender: quem é Júpiter? quem é Tellus?
3. A dimensão céu: Júpiter
Júpiter é a divindade central da religião romana. É o deus criador do céu e da terra, dos deuses e dos seres humanos. Talvez a filologia da palavra Júpiter nos desvende a experiência que seu nome oculta. Por detrás da palavra Júpiter se esconde a partícula Jou provinda do sânscrito dew que significa luz, brilho e claridade. Piter, presente em júpiter é a fórmula antiga de pater, pai. Júpiter significa então o pai e o senhor da luz. Da raiz sânscrita dyew subjacente à língua grega, latina, germânica, céltica e lituana, proveio Deus e dia. Deus neste contexto remete a uma experiência de luz. A luz com seu brilho e calor constitui uma das experiências fontais da psique. Ela corporifica o sentido e a alegria de viver, de discernir na multidão o rosto da pessoa amada, de ver o esplendor da natureza e das estrelas, de identificar um caminho e de livrar-se da angústia da escuridão e da errância. Desejar um “bom-dia” a alguém significa, originariamente, desejar-lhe um bom deus e muita luz em seu caminho. Quem guarda hoje em dia ainda essa memória sagrada, presente numa expressão tão corriqueira como “bom-dia”?
Júpiter se manisfestava na vivência religiosa dos romanos pelo resplendor do dia e também pelos raios, relâmpagos e trovões nas tempestades (Júpiter tonante). Foi neste contexto que Júpiter se sincretizou com Zeus, o deus maior do panteão grego, pois possuía a mesma significação. O nome Zeus deriva também do sânscrito dyew pitar ou também dyaus pitar significando o pai do céu luminoso e do dia ensolarado.
A agricultura depende em muito da luz e dos fenômenos atmosféricos como do frio e do calor, da chuva e do vento. Por isso Júpiter era venerado como o protetor e promotor da agricultura. Da agricultura, ontem como hoje, provém a alimentação para a vida. Júpiter tem a ver com a produção e reprodução do mistério da vida. E era assim venerado como a divindade central.
Como representava o deus supremo, os imperadores romanos se colocavam sob sua proteção. Ou pretendiam até representar seu poder, sua justiça, seu direito. Alguns sentiam-se, como Augusto (63aC-14dC) e ironicamente Nero (37-68), a encarnação do deus Júpiter.
Quando Júpiter aparece na fábula-mito, vem apresentado como o criador e doador de vida e de espírito. Ele configura a plenitude da divindade, quer dizer, da dimensão transcendente da realidade.
4. A dimensão terra: Tellus/Terra
Na fábula-mito de Higino ganha especial importância a deusa Tellus/Terra. Em todas as culturas, também na tradição greco-romana, a Terra constitui um dos mitos centrais. Ela recebe muitos nomes: Gaia/Tellus, Deméter/Ceres, Héstia/Vesta, como explicaremos.
Importa, antes de mais nada, constatar que nos mais antigos testemunhos do período paleolítico, quando vigorava o matriarcado*, portanto há mais de 40 séculos, representava-se o universo como uma grande mãe, Mater Mundi. Ela, por si mesma e sem concurso de ninguém, gerava tudo: os céus, os deuses, os seres humanos e todos os demais entes da natureza. A cabeça deste organismo vivo era figurado pelo céu estrelado; o busto, pela terra onde se encontra a vida humana; e embaixo, pelo anus mundi (o ânus do mundo), o lugar do inferno.
Num estágio posterior, sob a égide do patriarcado, a partir do neolítico, portanto 10 mil anos atrás, elabora-se uma representação mais reduzida. A Terra não é mais sentida como a realidade total. Ela é uma parte da realidade junto com a outra, o céu. Representa a Grande Mãe (Magna Mater, Bona Mater) aqui embaixo, esposa do Grande Pai lá em cima no céu. Como toda mãe humana, ela gera, nutre, defende e continuamente dá vida. Sempre se compõe e contrapõe à outra parte do todo, ao Pai do Céu (Pater Coelorum). Mas do casamento entre o céu e a terra se originam todas as coisas. O céu representa o princípio masculino, o sêmen, a semente e o elemento organizador. A terra, o princípio feminino, o útero que recebe o sêmen, o elemento acolhedor. Ambos, à sua maneira, são princípios ativos.
Três figuras mitológicas representavam, no imaginário greco-romano que subjaz à nossa cultura ocidental, o mistério da Terra: na versão grega, Gaia, Deméter e Héstia e seus correspondentes romanos, Tellus, Ceres e Vesta. Eles têm a ver com experiências que nós também fazemos hoje.
Gaia/Tellus (ou também Géia, combinação de gê = terra e aîa = grande, donde resultou a corruptela Gaia ou Géia), a Grande Mãe, representava o planeta Terra como um todo vivo e produtor de vida.
Deméter/Ceres representava a parte cultivada da terra. Aqui entra a colaboração humana com o trabalho e a arte do cultivo. Era a deusa das sementeiras. De Ceres nos vem a palavra cereais.
Por fim Héstia/Vesta simbolizava aquela parte da terra que reservamos e delimitamos para construir o lar humano. Em toda casa romana havia no centro o fogo que ardia dia e noite. Era o sinal de Héstia, de que na casa havia vida, aconchego e acolhida.
Gaia,/Tellus, Deméter/Ceres e Héstia/Vesta eram as referências afetivas pelas quais os gregos e os romanos elaboravam sua ecologia, vale dizer, seu relacionamento reverente com o meio-ambiente. Tudo era carregado de respeito e veneração, pois viam as coisas não como simples seres inertes, mas cheios de irradiação e de significado. A Terra, nas várias expressões de Grande Mãe, de terra cultivada e de lar, era sentida como um organismo vivo. Ele não pode ser violado e depredado. Caso contrário se vinga através de tempestades, raios, secas, incêndios, terremotos e vulcões.
O ser humano mantinha uma relação de veneração e de temor face à Mãe-Terra. Esse sentimento nunca se perdeu totalmente na humanidade. Sempre houve espíritos sensíveis à magia e ao encantamento da natureza, mesmo na época da ciência moderna que dessacralizou o mundo e o reduziu a um baú de recursos a serem explorados pela tecnologia. Nos dias atuais esse sentimento ressurge a partir das assim chamadas ciências da Terra. Elas tendem também a ver mais e mais a Terra como Gaia*, um superorganismo vivo, altamente organizado e com um equilíbrio sutil, sempre frágil e sempre por refazer. Tal é a teoria de Gaia, proposta pelo cientista da NASA, James Lovelock, como uma nova (na verdade, antiga) forma de ver a Terra, qual organismo vivo. A partir de dados científicos e empíricos ele e outros querem expressar o mesmo que os mitos originários expressavam por via da intuição e da comunhão: a Terra é viva e produz todas as formas de vida.
Na fábula-mito de Higino* a Terra surge reivindicando sua mais alta ancestralidade. Ela forneceu a Cuidado o material donde moldou o ser humano, a argila. A deusa Terra-Tellus representa a dimensão-terra, a perspectiva imanente da realidade.
5. A dimensão história e utopia: Saturno
Por fim, para pôr termo ao conflito entre o céu (Júpiter) e a terra (Tellus), é convocado Saturno. Quem é ele? Por que exatamente Saturno e não outro deus? Não é Júpiter, o deus supremo? Supõe-se que no está acima do próprio Júpiter, pois deve mediar na disputa em que Júpiter está envolvido. Efetivamente assim é, como logo veremos.
O mito de Saturno é um dos mais complexos da mitologia antiga. Nele se sincretizam e se sobrepõem muitas vertentes mitológicas, itálicas, etruscas, gregas, órfico-pitagóricas e romanas. Esta complexidade revela sua profunda significação para o entendimento da vida humana. Aqui ressaltamos apenas aqueles aspectos que interessam à fábula-mito de Higino.
Uma primeira indicação de seu significado original deriva do próprio nome Saturno. Vem de satus que significa semeado, do verbo serere, semear e plantar. Saturno é o deus das sementeiras e da agricultura, deus tipicamente itálico e mediterrâneo. Sua importância se traduz pela maior de todas as festas romanas, as Saturnais. Eram um verdadeiro carnaval. Tudo parava: os trabalhos, as escolas, os tribunais, a aplicação das penas. O que normalmente nos outros dias era proibido, na semana das Saturnais era permitido. Nas festas saturnais invertiam-se os papéis: os escravos se vestiam de senhores e estes os serviam. Comendo, bebendo, dançando e cantando se organizavam desfiles carnavalescos sob a batuta do Rei Saturnalício (princeps saturnalicius), verdadeiro Rei Momo, escolhido anualmente.
Antecipava-se a grande utopia política da humanidade: o encontro, pelo caminho da festa e do inconsciente coletivo, com o mito da idade de ouro e do paraíso perdido. Segundo esse mito, originalmente não havia classes, nem leis, nem crimes, nem prisões; todos viviam em plena liberdade, em justiça, paz, superabundância e alegria, como irmãos e irmãs em casa. Essa memória bem-aventurada nunca foi perdida na consciência da humanidade, até os dias de hoje - seja projetada no passado, a ser resgatada, seja no futuro, a ser construída. Essa utopia mobiliza movimentos, cria ideologias e alimenta o imaginário dos seres humanos que não se cansam de sonhar com um futuro reconciliado e integrado da sociedade humana. Uma sociedade e os cidadãos não podem viver sem uma utopia. Caso contrário, se fazem vítimas de portadores mesquinhos de poder que dele fazem uso em beneficio próprio, sem perspectivas de bem-estar para todos. O deus Saturno incorporava todos esses valores. E eram celebrados numa festa que rememorava a idade de ouro. Os carnavais modernos, especialmente no Brasil, guardam ainda essa memória antiga.
Por causa destas festas, o deus Saturno dos romanos foi sincretizado com o deus Crono dos gregos. Crono era o deus antigo da utopia originária da sociedade feliz. Para Crono se celebravam também festas com o mesmo sentido de resgate da idade de ouro, de liberdade, de igualdade fraterna e de inversão de papéis. Eram as Cronia, equivalentes às Saturnalia. Crono/Saturno era o deus antigo, anterior a Júpiter; foi o primeiro rei dos deuses, senhor do céu e da terra. Reinava nas ilhas Fortunas. Aí viviam os bem-aventurados num reino de paz, de justiça, de jovialidade e de abundância: a idade de ouro na qual os rios eram de leite e de néctar e onde a terra produzia tudo sem trabalho e suor dos camponeses. Essa idade de ouro é cantada pelo poeta romano Ovídio (43aC-17dC) como “a primavera eterna onde os ventos com seu hálito suave acariciavam as flores nascidas sem precisar de semente”.
O mito da idade de ouro, presidida por Crono/Saturno, representa a utopia maior, o ideal da humanidade socialmente integrada. Como tal foi assumida pelo filósofo Platão em sua compreensão da política e das leis. Somente seres superiores e divinos como Crono/Saturno, pensava Platão, evitam o despotismo inerente aos portadores humanos de poder e garantem a felicidade da espécie humana. Crono/Saturno é o arquétipo do governante sábio, do legislador justo e do rei magnânimo.
Depois de Crono/Saturno veio a separação entre os deuses e deusas no céu e os seres humanos na terra, a ordem social hierarquizada, surgiram as classes, a luta pelo poder e a história conturbada dos tempos de paz e de guerra: a idade de ferro e de bronze.
A ancestralidade de Saturno/Crono o colocava fora da concorrência com Júpiter/Zeus. É por esse título de deus antigo, sábio e justo, o deus do tempo e da utopia, reinando para além de qualquer conflito, na idade de ouro, que ele foi convocado para dirimir a questão entre a Terra (Tellus) e o Céu (Júpiter) a propósito do nome a ser dado ao ser humano.
Há um outro elemento que possivelmente ressoa na fábula-mito do cuidado essencial: a identificação de Saturno-Crono com o tempo. De fato Chrono com h significa, em grego, tempo. Essa semelhança das palavras Crono e Chrono fez com que o deus Crono personalizasse o tempo. Saturno, identificado com Crono, passou também a simbolizar o tempo. O deus Crono/Saturno assume, então, o papel que o tempo possui: tudo cria, tudo ceifa, tudo devora; a ele tudo está submetido; é soberano sobre o destino das pessoas. Isto significa que o ser humano se encontra enredado no tempo; está lançado na duração temporal; é um ser histórico que tem passado, presente e futuro e que constrói sua identidade no percurso do tempo, animado por uma utopia de integração, a idade de ouro.
O ser humano é, simultaneamente, utópico e histórico-temporal. Ele carrega em si a dimensão Saturno junto com o impulso para o céu, para a transcendência, para o vôo da águia (Júpiter). Nele se revela também o peso da terra, da imanência, o ciscar da galinha (Tellus). É pelo cuidado que ele mantém essas polaridades unidas e faz delas material da construção de sua existência no mundo e na história. Por isso o cuidado é cuidado essencial.
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